A capoeira joga com a dureza da vida

54 SÉRIE SABERES TRADICIONAIS – VOL. 4 emoção repulsiva que possibilita manifestações que ultrapassam a sofisticação dos gestos sublimes como “franzir sobrancelhas”. Para muito além do imaginário, foram dirigidas a Fanon diversas ofensas concretas relacionando o ser negro a uma potencial ameaça à integridade das pessoas brancas. Fanon relata que alguns brancos com os quais convivia na França tentavam ponderar o racismo classificando-o como um negro “diferenciado”, possuidor de títulos acadêmicos e, portanto, civilizado. Argumenta que após uma série de situações decidiu não mais tolerar comportamentos racistas. Relata que ao ser elogiado por uma mulher branca que o considerava um negro muito bonito, ele logo retrucou: “o negro bonito está cagando para você, madame”. Ele também relata sensações corporais como raiva e nojo ao presenciar esse tipo de situação, o que nos leva a ter uma noção do peso emocional que se torna patológico com o passar do tempo. Como diz Le Breton: A emoção seria, definitivamente, uma conseqüência da tomada individual de conhecimento de uma mudança corporal (LE BRETON, 2009, p. 7). Em suma, assim como a exploração colonial do terceiro mundo, ainda hoje podemos observar as marcas de uma experiência traumática a nível intercontinental que condenou pessoas negras, no âmbito geral, a uma assimetria em sociedade. Uma crueldade que sobrevive através dos tempos, mantendo o julgamento primitivo e antropofágico relegado aos negros e aborígenes. Subjugando os negros a uma condição de inferioridade em todos os aspectos das virtudes humanas, é possível reconhecer o racismo como uma orientação social que influenciou processos psíquicos à infelicidade e aboliu, em muitos casos, a criação de vínculos pessoais harmônicos. Haja vista que a paz é a base de todas as outras virtudes. A professora universitária e ativista negra Angela Davis (EUA), em seu livro Mulheres, Raça e Classe (2016), aborda a crueldade a que foram submetidas as mulheres negras no período escravagista. Era rotineira a prática do estupro pelos “senhores brancos”. A mulher negra que atraía sexualmente o senhor branco era convocada aos trabalhos domésticos. Por outro lado, a escrava que

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