A capoeira joga com a dureza da vida

45 A CAPOEIRA JOGA COM A DUREZA DA VIDA Parecia mais uma tranquila noite de trabalho de campo. Cheguei ao CEVI (Centro Esportivo Vila Ingá) por volta das 20 horas para entrevistar o Contramestre Loah do Accara. Ao descer no fim da linha do ônibus Manoel Elias me direcionei ao CEVI, mas, antes de entrar no centro comunitário, ouvi chamarem meu nome. Loah e outro camarada do grupo estavam bebendo cerveja no bar em frente. Confesso que senti certa frustração em ver que o local da entrevista mudara para o bar. Começamos a conversar e além de nós três e o dono do bar, havia dois sujeitos aparentando 50 anos de idade, todos bem atentos à nossa conversa. O tempo voou e quando bateu 23 horas nos direcionamos para a parada do fim da linha para que eu retornasse para casa. Ao chegarmos à parada, eu já havia avistado há algum tempo dois rapazes negros que aparentavam ter vinte anos de idade. Passados 15 minutos de espera, o ônibus chegou e, ao nos prepararmos para embarcar, o cobrador se posicionou na porta dianteira do ônibus interrompendo nossa entrada. E perguntou: Quem tem passagem? Eu falei que tinha e entrei de forma abrupta desviando do bloqueio do cobrador. O camarada doACCARA também entrou pela frente acompanhando meu movimento. Os dois rapazes entraram pela porta de trás, pois não tinham dinheiro para pagar passagem. Paguei com meu cartão tri-escolar e reclamei muito da atitude do cobrador. Ao passarmos pela primeira parada após o embarque, o motorista começou a gritar comigo, me mandando calar a boca, me chamando de nego filho da puta. Eu gritei, também falando que ele era tudo isso e mais um pouco e que ele não tinha razão nenhuma em falar comigo daquela forma. Naquele momento, estávamos na terceira parada após o embarque. O motorista parou o ônibus me chamando de negro chinelão e outras ofensas e ordenou que eu descesse ou ficasse de boca calada, caso contrário ele chamaria a polícia. Eu retruquei dizendo para ele chamar a polícia mesmo. Nesse momento os dois rapazes negros que estavam quietos no fundo do ônibus vieram perto de mim e disseram baixinho: “Ô meu, se eles chamarem a polícia vai sujar pra nós. Fica frio”. Eu senti que estava piorando para o meu lado. Concordei em ficar quieto, quando o motorista gritou: “Isso aí, cala a tua boca até o fim da viagem”. Então respondi: “Senta aí e dirige que eu quero chegar logo em casa, seu merda!” Ele

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