A capoeira joga com a dureza da vida

22 SÉRIE SABERES TRADICIONAIS – VOL. 4 me posicionando de maneira enfática em uma de suas aulas certo de que a antropologia dá legitimidade, junto ao apoio de minha comunidade, para aprofundar os potenciais heurísticos que a vivência na Capoeira Angola desencadeia no cotidiano de seus praticantes. Questionei a premissa do distanciamento epistemológico considerando que somente um perfil de pesquisador é capaz dessa posição (o homem branco hétero ocidental) e afirmei que todo saber é situado, resta reconhecer e explorar essa posição. Porém, o contragolpe surgiu com o complemento “arrogância” lançado ao ar, a insistência em me situar como potencial objeto e não sujeito de pesquisa era evidente. Esquivei ao silenciar analisando que nessa roda estou na base da hierarquia e os camaradas (quase todos brancos) não ecoavam minha cantoria, tampouco “batiam palmas para esquentar o jogo”. Movido por tal solidão e isolamento no campo universitário, percebi que meu estranhamento epistemológico não se desenvolvia no trabalho de campo, mas em sala de aula. Baseado nesse desconforto, comecei a procurar por trabalhos de destaque na bibliografia antropológica que abordassem o antropólogo afetado através de seu tema de pesquisa e no contato direto com seus interlocutores. Eu me senti convocado a problematizar o “distanciamento epistemológico” cujo pesquisador universal é sempre o mesmo. Ao mesmo tempo, a me questionar: como fica a consolidação de intelectuais engajados? Por que insistir na obrigatoriedade de distanciamento? Considero oportuno enfatizar que meu afeto despertara nas possibilidades e potência de outras conexões entre a reflexão e aportes de intelectuais negros e as experiências vividas, sem que a exterioridade fosse um ônus ou cegueira de quem não enxerga com distanciamento. Acredito na valorização do trabalho de campo, onde o participar e observar seja para impactar formas de elaborar conhecimento e não simplesmente mover-se com exercícios de aproximação e distância sobre a vida comum ou incomum das pessoas. O que estava em questão, ou em dissonância, era a compreensão hegemônica, naquela sala de aula, de que o método antropológico teria um único ponto de partida, do distante à aproximação, ou vice-versa, estabelecendo áreas interiores e exteriores. Isso sempre vem à tona quando estão inseridos pesquisadores/sujeitos que

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